Wednesday, 13 January 2010 21:00

O geográfo Aziz Ab´Saber fala sobre a Amazônia

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Da revista Carta Capital


Um dos maiores pesquisadores brasileiros, aos 85 anos o geógrafo Aziz Ab’Saber acha que falta dedicação do País para lidar com a Amazônia, ponto central de suas preocupações. Segundo Ab’Saber, mais do que soluções isoladas, é preciso pensar na região em termos interdisciplinares, sua grande bandeira na carreira de meio século como professor na USP, hoje aposentado. Integrante do grupo de intelectuais que apoiou Lula em 2002, o geó-grafo acabou por se afastar do governo diante de divergências, sobretudo quanto ao tratamento dos temas ambientais.

CartaCapital: Em sua opinião, o que poderia ser feito, em termos governamentais, na área de ciência e tecnologia?
Aziz Ab’Saber:
Quando se fala em ciência e tecnologia, às vezes a pessoa fica pensando em pesquisa nuclear, foguetes... Não. O que me preocupa é a degradação, é como revitalizar os solos das regiões que foram muito devastadas na Amazônia para poder ter uma agricultura economicamente sustentável – não gosto desse termo, mas neste caso é bem isso que preciso dizer. É um fato indispensável, porque as áreas devastadas são muito grandes e muito contínuas, ao longo de estradas, ramais, sub-ramais e espinguelas de peixe, como são chamadas popularmente na região. Falando sobre isso com pessoas que conhecem a agricultura tropical em áreas florestadas, a gente chegou à conclusão que tem de ter dois pontos de partida para as áreas derruídas. Primeiro, a borda da floresta. A partir dela, pode-se ir plantando espécies vegetais que tenham algum valor econômico e nutritivo: açaí, pupunha... E quando isso começar a florescer, ir mais para dentro da área degradada e plantar mandioca, por exemplo. Existe ainda a possibilidade de uma tecnologia especial no sentido de abranger áreas maiores do que apenas a borda da floresta. Essas áreas maiores é que darão força aos fazendeiros, aos agricultores tradicionais da região e outros que venham de fora, por que não? Senão eles continuam cortando por cortar. O problema da Amazônia hoje tem de ser percebido no sentido neocapitalista do mundo e do Brasil. Todo espaço virou mercadoria, diziam os jovens geógrafos de São Paulo há muitos anos. E eles têm mais do que razão.



CC: Como cientista, que conselho daria para quem assumir o governo em 2011?
AA:
Que no tratamento da Amazônia, em vez de ficar fazendo reunião aqui e acolá, e sendo fotografado na margem de um rio ou no centro de uma cidade, poderia pensar nos projetos que realmente pudessem servir à região e, ao mesmo tempo, deter a devastação florestal. Atualmente, com as imagens de satélite e do Google Earth que permitem que se vejam as cidadezinhas, os agrupamentos no Alto Solimões, na fronteira com a Colômbia e Venezuela, é possível perceber o que está acontecendo e agir para barrar os acontecimentos mais graves do desmatamento.



CC: Existe alguma maneira de atrair mais jovens para a pesquisa científica?
AA:
Sim, se o governo puder convocar a universidade, dizendo: eu quero a presença de vocês como pesquisadores e como planejadores. E forçar as universidades a terem encontros de planejamento interdisciplinares. Ou seja, o currículo da área de planejamento teria de ter a presença de geógrafos, geólogos, agrônomos, sociólogos, sanitaristas, médicos. Sete ou oito disciplinas diferentes para que houvesse uma diluição dos fatos que dizem respeito ao entendimento básico dos assuntos a ser discutidos. Cada projeto tem de ter estudos básicos feitos por uma equipe, não por uma pessoa somente. Minha tarefa é indicar isso, com a idade que estou. Ainda não desisti de que as universidades sérias tenham cursos de planejamento, baseados em equipes interdisciplinares e com foco no entendimento da realidade física, ecológica, social e política de cada área. Nesse sentido, tenho feito um trabalho sobre a divisão da Amazônia a favor de planejamentos sub-regionais, onde usei muito o conhecimento de viagens. Se o governo quisesse influenciar os jovens, poderia organizar excursões de diversas universidades sérias, levando sempre essa equipe interdisciplinar para fazer algumas observações em relação a diferentes setores, naquela ideia básica de estudar o nacional, o regional e o setorial: o que está havendo em relação à educação, à saúde pública – coisa seriíssima nessa região –, as condições sanitárias, a possibilidade de transporte de produtos etc. Depois, esses grupos se reuniriam em Brasília para discutir o que viram, quais os problemas mais comuns e quais as possibilidades de indicar projetos simples e diretos para atender a questões que às vezes não são tão graves quanto a gente pensa, mas que são gravíssimas porque não há governo no Brasil.



CC: Era mais fácil ser pesquisador na sua época ou agora?
AA:
Na minha época era extremamente difícil. Minha mulher outro dia me criticou: “Você foi um bobalhão, andou por cima de caminhões, de sacos de arroz e sal para ir até Aragarças, no sudoeste de Goiás, quase sem dinheiro, e fez assim a vida inteira, usando seus próprios recursos ou aproveitando alguma viagem para algum lugar aonde ia dar palestra. Isso foi um erro na sua vida porque poderia ter feito muito mais se tivesse recursos”. E ela tem toda razão. Ela me critica também por não ter tido oportunidade de conhecer outras áreas do mundo: África do Sul, Saara, Austrália, Finlândia, Japão... É obrigação dos governantes darem possibilidades de viagens para quem trabalha e produz. Os governantes são tão... Não vou dizer palavrão, mas nem para (a cúpula do clima de) Copenhague eles levam os melhores, só aqueles que estão mais próximos do eleitoreirismo. Ninguém nunca me perguntou se eu poderia ir a Copenhague. Claro que aos 85 não posso, mas um dia desses a OAB de Brasília pediu que eu fosse a Manaus para discutir a Amazônia e tive uma participação da qual me orgulho muito.



CC: Também em termos de salários, deve ser revisto o que se paga ao pesquisador?
AA:
Não, tem de se rever a partir do professor e fazer exigências maiores em relação à cultura dele, desde o primário. A educação tem de ser pensada de uma maneira geral. Até os 5 anos e meio, 6, é um quinto de educação que dá destreza mental para a criança. Quando ela vai para o fundamental, depois do pré é muito importante, porém reduzido, tem de estar preparada. E mais tarde vem a universidade, que tem outros padrões de conhecimento e que, sem pesquisas acrescentadas aos estudos que recuperam todos os conhecimentos acumulados, não vale coisa nenhuma. Mas a universidade é pensada como sendo apenas um projeto de se tirar uma assinatura. Nesse campo o governo é zero e os educadores que ficam em torno dele não são tão bons quanto deveriam ser.

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